A inteligência artificial abriu novas possibilidades para produção de conteúdo, educação e comunicação. Mas a mesma tecnologia também está sendo utilizada para criar falsos médicos que parecem reais, apresentam informações de saúde sem comprovação científica e conquistam milhões de visualizações na internet. No Brasil, um levantamento da organização CTRL+Z identificou 29 canais em português que utilizam avatares, vozes e personagens produzidos com inteligência artificial para apresentar supostas orientações médicas. Juntos, esses canais já ultrapassaram 70 milhões de visualizações. (Ctrl+Z) O fenômeno chama atenção especialmente porque parte desse conteúdo é direcionada ao público idoso, utilizando temas como memória, Alzheimer, catarata, alimentação, dores, envelhecimento e outras preocupações relacionadas à saúde. Como funcionam os “médicos” criados por inteligência artificial A tecnologia permite criar personagens digitais com aparência extremamente convincente. Em muitos vídeos, o espectador encontra uma pessoa usando jaleco, falando diante da câmera e apresentando informações em tom profissional. O problema é que aquele personagem pode simplesmente não existir. Os vídeos podem combinar: O resultado é um conteúdo que, à primeira vista, pode parecer uma consulta ou uma explicação feita por um profissional de saúde. O problema está na aparência de autoridade A utilização de jaleco, linguagem técnica e um ambiente semelhante ao de um consultório pode transmitir uma sensação de credibilidade. Para uma pessoa que não conhece profundamente determinado assunto médico, identificar a diferença entre um profissional verdadeiro e um personagem digital pode ser extremamente difícil. É justamente essa aparência de autoridade que torna o fenômeno preocupante. Mais de 70 milhões de visualizações O número identificado pelo levantamento da CTRL+Z ajuda a dimensionar o alcance do problema. A organização encontrou 29 canais em português voltados a esse tipo de conteúdo, muitos deles criados recentemente. Segundo os dados divulgados, a rede ultrapassou 70 milhões de visualizações, com produção em ritmo elevado. (Ctrl+Z) A investigação também identificou sinais de que alguns conteúdos são reproduzidos ou adaptados em diferentes canais. Isso cria uma espécie de linha de produção de vídeos: O problema é que a velocidade de produção pode ser muito maior do que a capacidade de especialistas verificarem cada informação publicada. Por que o público idoso aparece como alvo frequente? A terceira idade é um dos públicos mais interessados em informações relacionadas a doenças, alimentação, memória, visão, medicamentos e envelhecimento. Esse interesse legítimo pode ser explorado por produtores de conteúdo que utilizam medo e curiosidade para conquistar audiência. Títulos com expressões como “faça isso antes que seja tarde”, “o erro que destrói sua memória” ou “o alimento que pode acabar com determinado problema” são exemplos do tipo de abordagem que pode gerar cliques. A questão não é o uso da inteligência artificial em si. O problema ocorre quando a tecnologia é usada para fabricar autoridade e apresentar desinformação como se fosse orientação médica. Um caso que mostra o risco Um dos episódios relatados na investigação envolve uma mulher de 82 anos que encontrou no YouTube um vídeo apresentado por um suposto médico sobre catarata. O personagem era produzido por inteligência artificial. A orientação apresentada no vídeo fez com que a espectadora considerasse seguir as recomendações do conteúdo em vez da orientação recebida de seu oftalmologista. O episódio demonstra como uma informação aparentemente simples pode interferir em decisões reais relacionadas à saúde. (Folha de S.Paulo) Esse é um dos aspectos mais preocupantes do fenômeno. Uma pessoa pode assistir a um vídeo durante alguns minutos e, acreditando estar diante de um médico verdadeiro, modificar sua alimentação, interromper um tratamento ou deixar de procurar atendimento profissional. Quando uma informação de saúde se transforma em risco Informações incorretas sobre saúde não possuem o mesmo impacto de uma notícia falsa sobre entretenimento ou esportes. Uma orientação equivocada pode produzir consequências concretas. Entre os possíveis riscos estão: Por isso, conteúdos relacionados à medicina precisam ser avaliados com cuidado. A inteligência artificial não é o problema por si só É importante fazer uma distinção. A inteligência artificial pode ser utilizada de maneira legítima na medicina e na produção de conteúdo educativo. Ela pode auxiliar profissionais, pesquisadores, estudantes e instituições em diferentes tarefas. O problema é utilizar a tecnologia para simular um profissional inexistente e conferir aparência de autoridade a uma informação sem comprovação. A discussão, portanto, não deveria ser simplesmente “IA é boa ou ruim?”. A questão mais importante é: Quem está produzindo o conteúdo, quais são suas credenciais e quais evidências sustentam aquilo que está sendo apresentado? Como identificar um falso médico na internet O usuário pode adotar algumas medidas simples antes de confiar em uma orientação encontrada nas redes sociais. 1. Procure o nome do profissional Se o vídeo apresenta um médico, verifique se a pessoa realmente existe. No Brasil, informações sobre registro profissional podem ser consultadas nos canais oficiais correspondentes. 2. Desconfie de promessas extraordinárias Frases que prometem resultados rápidos ou garantidos merecem atenção especial. Tratamentos médicos raramente podem ser resumidos a uma “receita secreta” capaz de resolver diversos problemas. 3. Observe se há venda de produtos É importante desconfiar quando uma suposta orientação médica termina com a recomendação para comprar determinado suplemento, curso, e-book ou produto. Isso não significa que todo conteúdo que oferece um produto seja necessariamente falso, mas o interesse comercial precisa ser considerado. 4. Procure outras fontes Compare a informação com fontes reconhecidas, como hospitais, universidades, sociedades médicas e órgãos públicos de saúde. 5. Nunca interrompa um tratamento por causa de um vídeo Uma orientação encontrada na internet não deve substituir uma avaliação médica individualizada. E o YouTube? O levantamento também chama atenção para o papel das plataformas digitais. O YouTube possui regras relacionadas à desinformação médica e afirma que conteúdos podem estar sujeitos às suas políticas. Entretanto, a existência de regras não significa que todos os vídeos problemáticos sejam imediatamente retirados. A escala da produção torna a fiscalização um desafio. Enquanto um canal pode produzir dezenas ou centenas de vídeos, a plataforma precisa identificar quais conteúdos violam suas políticas e avaliar cada situação. Existe uma indústria por trás desses vídeos? Os dados levantados apontam para um modelo que pode envolver monetização. Alguns